Kelly Witiuk: a primeira Caldereira de Manutenção certificada pela Abraman

A primeira Caldereira de Manutenção certificada pela Abraman
Com uma trajetória marcada por superação e a busca incessante por novos desafios, Kelly Witiuk, de 47 anos, se tornou uma figura de inspiração no universo da manutenção industrial.
Após um grave acidente em 2021 que resultou na morte do seu companheiro e a deixou com sequelas permanentes, Kelly não apenas se recuperou, mas também redefiniu seu caminho profissional. Deixando para trás uma carreira no comércio, onde atuava como gerente de loja, ela ingressou em um ambiente predominantemente masculino, determinada a crescer.
Em fevereiro de 2024, retornou à área de serviços gerais em uma parada de manutenção na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), no Paraná, mas seu objetivo era ir além.
Incentivada por um programa de qualificação feminina da Nitnave, e motivada a homenagear seu marido, que era caldeireiro, ela abraçou a profissão. O resultado de sua dedicação veio em dezembro, quando se tornou a primeira mulher no Brasil a obter a certificação de Caldeireira de Manutenção pela Abraman, um marco que representa não só uma conquista pessoal, mas um passo significativo para a representatividade feminina na indústria.
Até o acidente que você sofreu em 2021, você já tinha tido alguma experiência como caldeireira?
Nunca! Eu trabalhei dois anos e sete meses na FAFEN, que é uma área da Petrobras, mas foi como auxiliar de serviços gerais. Antes dessa experiência, sempre trabalhei no comércio. Estava na gerência de uma loja de internet quando aconteceu o acidente.
Como foi o seu início no universo da manutenção?
Em fevereiro de 2024, meus ex-colegas da FAFEN me chamaram para uma parada na Repar. Eles não sabiam do meu acidente. Eu falei: “Infelizmente, não posso, porque agora eu estou debilitada, andando de muleta”. Mas eles insistiram; disseram que me colocariam em uma função adaptada. Disse a mim mesma: “Sabe de uma coisa? Eu vou voltar, e quero voltar na mesma função que eu estava, que era o serviço geral. Pegando em hidrante, lavando a área. Porque se eu não voltar agora, tudo vai ser muito cômodo para mim, como estava sendo na loja”. Eu não queria comodidade; queria desafios, porque através deles eu poderia me superar. Eu aceitei, mas desde que não me limitassem em nada.
E como aconteceu a transição de serviços gerais para a caldeiraria?
Lá trabalhando, algumas pessoas me olharam, não sabiam das minhas condições, e me convidaram para o quadro fixo da manutenção da Nitnave, a empresa em que trabalho hoje, onde ingressei em 8 de abril de 2024. Continuei em serviços gerais. Daí, surgiu um programa que a Repar implantou de ter mulheres em todos os setores. Eu já tinha deixado bem claro que queria crescer e fazer parte dessas cotas, em uma função importante. Quando demonstrei meu desempenho, meu supervisor me chamou. Ele disse que precisava colocar mulheres em três setores — andaime, isolamento e caldeiraria — e a empresa resolveu qualificar mulheres de dentro, treinando e dando cursos. Eu achei isso maravilhoso.
Por que você escolheu a caldeiraria entre as opções disponíveis?
Isolamento térmico não me interessaria porque seria cômodo. Andaime é um serviço pelo qual eu sou apaixonada - para mim, eles são artistas! -, mas, infelizmente, a remuneração não é tão boa quanto a da caldeiraria. Então, optei pela caldeiraria pela remuneração e também para homenagear meu falecido esposo, que era caldeireiro. Era uma coisa que nunca passou pela minha cabeça, mas se era para me desafiar, eu iria me desafiar ganhando mais e o homenageando.
Quando você decidiu buscar a certificação da Abraman e como foi sua preparação?
Quando soube que a Repar estava exigindo que 70% das equipes de manutenção de caldeiraria tivessem a certificação Abraman, eu pensei: “Por que não fazer?”. Fui atrás e vi que precisava de um ano de experiência registrada em carteira. Esperei e, quando estava perto de completar o prazo, corri atrás para fazer a inscrição. Eu estudei muito! Na hora do almoço, eu ia para o meu carro para estudar. Montei uma apostila com vários assuntos, pesquisando e pegando material com colegas. Minha dupla, um homem com 33 anos de caldeiraria, e outros colegas me ajudaram muito, trazendo materiais do tempo em que fizeram Senai. Foram dois meses de muita luta, estudando e treinando sempre que tinha um tempo.
Como foi o processo de certificação no Rio de Janeiro?
Nós chegamos ao Rio em 8 de dezembro para a prova agendada para o dia 10. Fomos em quatro colegas, eu era a única mulher. Um dia foi a prova teórica, com 50 questões de múltipla escolha, onde era preciso acertar 70% e não se podia errar mais que três questões em cada assunto. Foi uma prova muito difícil. No outro dia, foi a prova prática, das 8h às 16h. Eles deram cinco exercícios para fazer: fabricar um cilindro, uma abraçadeira, um calço de bomba e trocar uma tubulação, instalando uma válvula. Eram funções que eu já desempenhava no Paraná, a diferença é que lá eu tive que fazer tudo do zero, traçar, fazer os cálculos.
Qual foi a sensação ao receber a notícia da aprovação e de ser a primeira mulher certificada?
Eu sou muito ansiosa, então, conforme eu terminava um exercício, já levava para o examinador. Quando terminei o último, ele já tinha corrigido os outros. O diretor me deu a notícia de que eu tinha passado, e foi aquela festa. Depois, a segunda notícia: que eu era a primeira mulher no Brasil a ter esse certificado. Foi outra alegria imensa, não pelo título, mas por saber que vou inspirar várias outras mulheres a não se manterem onde os homens querem que elas estejam, mas onde elas querem estar.
O que essa conquista representa para você?
Além de inspirar outras mulheres, essa conquista vai me dar um conforto financeiro maior. Hoje, eu tenho que trabalhar em dois, três empregos. Com a classificação, vou ganhar mais e poderei trabalhar menos, tendo mais tempo com meu filho, que tem 14 anos, e também para me cuidar. Vou ter uma qualidade de vida melhor, e um respiro financeiro.
Quais são seus planos para o futuro?
Logo, logo eu vou ser encarregada de caldeiraria. E vou ser a primeira também! Pelo que já pesquisei, não existe mulher encarregada de caldeiraria em outras empresas. Meu próximo passo é esse. E eu vou chegar lá! Pode escrever!
A certificação conquistada por Kelly integra o Programa Nacional de Qualificação e Certificação (PNQC) da ABRAMAN, iniciativa que tem como objetivo promover a melhoria contínua e o desenvolvimento dos profissionais de manutenção e gestão de ativos, por meio do reconhecimento formal de seus conhecimentos e habilidades.